O MENINO DOS OLHOS VERMELHOS - CAPÍTULO 2: O dom

by 13.5.14 11 comentários


Júlio caminhou por várias horas na escuridão, guiando-se apenas pelas estrelas e a fraca claridade fornecida pela lua minguante. Seus ossos doíam por causa do intenso frio daquele inverno e os agasalhos que havia levado estavam sendo usados para aquecer o bebê. Subiu e desceu colinas por entre plantações de trigo e arroz, atravessou algumas pontes sobre riachos e até uma grande ponte de pedra que levava à outra margem do Rio de Cernes. Toda aquela região de Tereus era de uma beleza esplêndida, tema de muitas canções, mas naquela escuridão o cenário se tornara melancólico e assustador aos olhos de Júlio Salazar.
Raios de luz já apontavam no horizonte quando chegaram ao sítio de seu falecido irmão, Walfredo Salazar. Um homem alto e elegante, de pele amorenada que, quando vivo, alegrava toda a família com suas extrovertidas brincadeiras e irreverente personalidade. Era um dançarino nato e um conquistador de tirar o chapéu, mas abusou de sua autoconfiança e acabou perdendo sua vida numa corrida de cavalos nas montanhas do oeste.
A propriedade estava completamente abandonada. As plantações de milho e soja, muito produtivas em outros tempos, já não existiam mais e o capim tomara de conta de quase tudo. Na parte mais baixa do vale, à margem da lagoa, encontrava-se a velha casa de seu irmão, nitidamente tomada pela sujeira, mofo e algumas espécies de plantas trepadeiras. Uma casa bonita, com três suítes, sala, copa, cozinha, biblioteca e uma varanda na frente e em um dos lados, embora precisasse de uma boa reforma.

— Este será nosso novo lar, Edgar. Não parece tão aconchegante, a princípio, mas em alguns dias te prometo que estará bem melhor. Aguarde aqui enquanto busco água na lagoa para limpar um cômodo para você. — disse o homem colocando seu filho num velho e empoeirado cesto de palha abandonado na varanda.

Em pouco mais de uma hora, Júlio já havia limpado a copa, acendido a lareira e construído uma pequena cama improvisada com madeira, palha seca e um lençol feito de retalhos que trouxera de sua antiga casa.  Depois, invadiu uma propriedade vizinha e roubou de lá uma cabra para que pudesse usar o leite para amamentar o pequeno Edgar. Não era de seu feitio roubar pessoas, mas Júlio não queria ter que pedir, pois estava evitando que soubessem que a casa dos Salazar votara a ser ocupada.
Em algumas semanas, a casa já estava totalmente limpa e Júlio já havia até construído de forma um tanto quanto artesanal alguns móveis de madeira, como cadeiras, uma mesa e uma cama mais confortável do que aquela improvisada. Também roçou, arou e plantou sementes variadas em um pequeno lote próximo da casa, a fim de poder colher dali a alguns meses uma seleção de frutas. Aos poucos foi melhorando as condições de sua propriedade, fazendo reparos na casa, consertando cercas, roçando, arando e plantando.
Dois meses após sua chegada, Júlio recebeu sua primeira visita. O velho criador de cabras, vizinho de sua propriedade e dono da cabra que roubara, percebeu a fumaça saindo da chaminé de sua casa e resolveu verificar quem era o novo vizinho.

— Oooh! Bom dia, vizinho. Vi uma fumaça saindo aí e decidi verificar se o velho Walfredo Salazar havia ressuscitado. — disse o criador de cabras aproximando-se da varanda — Me chamo Clemente Martinez e moro logo ali depois da lagoa. Muito prazer.

Júlio não havia percebido a aproximação do visitante e ficou surpreso com a chegada repentina daquele homem baixo e careca, de aparência tranquila e voz fina. Percebeu então que a cabra roubada estava presa à coluna da varanda e que o velho a examinava. Ele era o dono — pensou e se sentiu nitidamente desconfortável com aquela situação.

— Bom dia, Sr. Martinez. Sou irmão do antigo dono desta propriedade e me chamo Júlio Salazar. Mudei-me para cá há dois meses com meu filho, logo após a morte de minha esposa e estou recomeçando minha vida. Se houver alguma coisa que eu possa ajudar...
— Não, vizinho. Na verdade, pelo que vejo estás precisando mais de ajuda do que eu. Em dois meses conseguistes fazer tudo isso com essa propriedade, é sinal que tens trabalhado muito. — disse Martinez ainda examinando discretamente sua antiga cabra.
— Cheguei aqui com meu filho trazendo apenas a roupa do corpo e alguns utensílios. Aos poucos estou conseguindo manter a mim e meu filho através de frutas que colho na mata, animais que caço e também o leite dessa cabra, que sustenta meu menino.

O velho Martinez ficou em silêncio durante alguns segundos, depois se voltou na direção de suas terras e começou a andar.
 
— Você me parece ser um bom homem, Salazar. Assim como seu irmão. Amanhã venho lhe trazer mais algumas cabras e bodes, pois só essa que pegaste em minhas terras não será suficiente para você e seu filho. — disse Martinez ao ir embora.

Júlio ficou surpreso e ao mesmo tempo emocionado. Nesses tempos difíceis não esperava encontrar alguém que lhe estendesse a mão. Alguém que, mesmo sabendo que tinha sido roubado por ele, ainda sim, o ajudaria. E se sentiu, de repente, um homem de muita sorte e abençoado. Terminou então de amassar as frutas em um recipiente de cerâmica, misturou com um pouco de leite e levou para Edgar.
Como prometido, no dia seguinte Martinez foi até a casa de Júlio e o presenteou com nove cabras e dois bodes.

— Sabe fazer queijo, Salazar? — perguntou-lhe o velho criador de cabras.
— Sim, senhor. — respondeu Júlio, se lembrando de que havia aprendido com seus avós quando ainda morava em Bankog, país ao leste de Tereus. — Meus avós faziam ótimos queijos e aprendi com eles.
— Pois bem, acho que isso será o suficiente para você começar a produzir seus queijos e vender na cidade.
— Sou muito grato por tamanha generosidade, senhor. Espero um dia poder retribuí-lo.

Nesse mesmo dia, já quando se ajeitava para dormir ao lado do pequeno menino de olhos vermelhos, Júlio se questionou se Martinez seria generoso da mesma forma se tivesse conhecido Edgar. Teria ele me doado as cabras se soubesse desses olhos? Ou ficaria aterrorizado, como ficaram as parteiras e Anne, e fugiria? — pensou serenamente e logo se deixou seduzir pelo cansaço de um dia inteiro de trabalho e adormeceu.

Apesar do isolamento, Edgar foi crescendo como uma criança normal, sendo educado pelo seu pai e o ajudando nas tarefas diárias do sítio como tirar leite das cabras, plantar, colher frutas e até na produção de queijo.  Aos oito anos, ganhou seu primeiro livro, O homem que tudo sabia, e com o auxílio de seu pai já ensaiava seus primeiros passos na leitura. Nessa idade, sua pele era espantosamente branca, com algumas pequenas pintas marrons espalhadas pelo corpo e seus cabelos formavam grandes cachos loiros que circundavam sua cabeça. Tinha uma imaginação que ultrapassava as barreiras mais lógicas, talvez fruto das mil e uma estórias que seu pai sempre lhe contava antes de dormir, e essa imaginação o fazia viajar em brincadeiras solitárias que simulavam épicas batalhas entre reinos, castelos de gelo esculpidos nas montanhas, dragões cuspidores de fogo e água e outras tantas aventuras que o distraíam o dia inteiro.
Júlio, apesar de reconhecer o quanto seu garoto estava crescido, continuava a mantê-lo isolado, pois tinha medo da reação das pessoas, de ser novamente perseguido ou do trauma que tais reações poderiam causar em seu filho. No entanto, sabia que não poderia escondê-lo por muito mais tempo. Com o crescimento nas vendas de queijo, muitos compradores passaram a ir até o sítio buscar suas encomendas ao invés de esperarem na cidade, pois era mais rápido visto que Júlio não tinha um meio de transporte adequado para levar grandes quantidades de queijo. E isso fez aumentar as chances de alguém ver o pequeno Edgar em algum momento. Por algumas vezes, inclusive, compradores chegaram a ver o garoto, de longe, mas ele timidamente logo se escondeu e não deixou que vissem seus olhos.
Com o tempo, Júlio começou a perceber mudanças de comportamento de seu filho quando via alguma pessoa chegar à propriedade. Na maioria das vezes o pequeno Edgar ficava amedrontado e corria para o seu quarto, mas em alguns casos, ele se sentia absolutamente tranquilo e só se escondia por que Júlio pedia para que o fizesse. Curioso, chegou a perguntar algumas vezes para seu filho o porquê daquela atitude e sempre ouvia a mesma resposta.

— Sei quando são homens bons ou homens maus, papai.

Foi então que lhe passou pela cabeça que aqueles olhos tinham de especial não somente aquela tenebrosa cor sangrenta, mas também um incrível dom. Mesmo não sabendo ao certo como aquilo era possível, após muitas conversas e observações, Júlio deduziu que Edgar podia enxergar o caráter de qualquer pessoa que se pusesse à sua frente, e na forma de um suave espectro de luz, conseguia identificar as verdadeiras intenções desses indivíduos pela cor desse espectro. Era algo assustador, mas ao mesmo tempo, fascinante!




Apesar da descoberta daquele fantástico dom, a vida de pai e filho continuou bastante tranquila, como se aquilo fosse uma coisa absolutamente normal.
O vendedor de queijos já havia conseguido formar suas plantações de soja, aumentado consideravelmente o número de cabras e bodes de sua propriedade e produzia e vendia queijos como nunca, mas o inverno chegou, e juntamente com ele, trouxe a maldita peste que há tempos se espalhara por regiões próximas dali. Durante algumas semanas Júlio ainda manteve suas atividades no sítio, mas seu corpo já não aguentava mais o trabalho e ele foi obrigado a se render. A febre alta e a dor que lhe consumia o corpo não o deixavam mais sair da cama. O pequeno Edgar, completamente livre da doença, cuidava de seu pai e fazia algumas tarefas básicas que lhes permitiam ter o que comer e beber, mas ainda era muito jovem para arcar com as responsabilidades do sítio e ajudar seu pai a livrar-se daquela doença.
Já havia quarenta e cinco dias que Júlio Salazar não trabalhava, uma chuva suave respingava na janela do quarto enquanto Edgar molhava a testa de seu pai com um pano na tentativa de baixar a febre que já havia lhe provocado vários delírios durante o dia. Um relâmpago forte cruzou o céu, clareando o interior do cômodo e revelando a inevitável expressão de sofrimento na face de seu pai. Logo em seguida, o trovão ensurdecedor fez tremer objetos e sentimentos que, confusos, misturavam-se à tentativa de manter as esperanças.
Edgar molhava mais uma vez o pano na bacia com água quando seu pai agarrou-lhe fortemente o braço.

— Edgar, meu filho. Eu sempre acreditei em você e sempre acreditarei. Eu te trouxe para cá para tentar te proteger do mundo lá fora, mas creio que está chegando o dia em que não estarei mais aqui e você terá que aprender a cuidar de si próprio. — disse Júlio olhando fixamente para seu filho — Jamais, em nenhuma hipótese, acredite que esses olhos o torna inferior a qualquer outra pessoa deste mundo. Eles são únicos e não podem ser vistos como uma maldição, mas sim como uma bênção.

Júlio parou de falar por um momento, interrompido por uma tosse que parecia romper-lhe o peito, depois respirou fundo e continuou.

— Logo estará sozinho e coisas ruins podem lhe ocorrer, mas seja forte e corajoso, como todos os Salazar sempre foram e acima de tudo, busque sempre sua liberdade.

Edgar olhava para seu pai naquele estado e não conseguia esconder as lágrimas que saiam dos seus olhos, que naquele momento, pareciam não possuir mais aquele brilho vermelho e flamejante que sempre esteve presente. Como se a chama daquele olhar se apagasse à medida que a vida de seu pai se extinguia.
Lentamente a mão que segurava seu braço foi perdendo as forças e Edgar teve então a certeza que seu pai não acordaria na manhã seguinte.

— Obrigado por tudo, meu pai. Prometo que serei forte como você e sempre te amarei. — disse o garoto debruçando-se sobre o peito de seu pai.

E ali permaneceu deitado, ouvindo as últimas batidas daquele coração tão nobre e corajoso. 

Dênis Girotto de Brito

Escritor

Poeta e contista, autor do livro "Os três lados da moeda: vida e morte em poesia" e colaborador em diversas antologias de contos.

11 comentários:

  1. Eu realmente mergulhei de cabeça nessa continuação! ! Muito boa, quando vamos para o próximo capítulo?? rsrs

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  2. Meu amigo parabéns, cada vez superando-se em seus romances, muito boa a estória, uma viagem histórica,
    O menino dos olhos vermelhos, um dom de família, passado de geração para geração, vamos ver no desenrolar dos próximos capítulos, o que irá acontecer com Edgar Salazar, será que a sociedade o verá com bons olhos? Será que sofrerá preconceito assim como o pai? Será que vai saber lhe dar com a pressão social?? Será que será bem sucedido? será que vai casar? enfim, tantos questionamentos, ansioso para ver os próximos capítulos, e boa sorte ao menino dos olhos vermelhos!!

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    1. Quem leu o conto sabe mais ou menos o que acontecerá na estória, apesar de que no romance algumas partes serão alteradas, outras acrescentadas e algumas até retiradas. :)

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  3. Quero muito mais!!!
    Perfeito...

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  4. Muito bom!!!! Mal posso esperar pelo próximo capítulo!

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  5. Excelente esta sequência. Parabéns e esta estória já me cativou desde o 1º capítulo. Obrigado de coração por compartilhá-la conosco gratuitamente.

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    1. Eu que agradeço pela participação. Grande abraço! :)

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  6. Dom maravilhoso tem o Edgar, mas que pode ser uma benção ou um fardo. Passando agora para o próximo capítulo...

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